EM DESTAQUE ENTRE SOBERANIA, ESCALA E EXECUÇÃO Há uma mensagem central que saiu do palco principal do 35.º Digital Business Congress: a Europa já identificou os riscos de dependência tecnológica, mas ainda tem de saber como vai transformar soberania digital em capacidade concreta. Investimento, infraestruturas críticas, regulação eficaz, talento, segurança e inovação à escala são caminhos. No Centre Stage, líderes políticos, dos reguladores e das empresas, tecnólogos e investigadores cruzaram diagnósticos e propostas sobre o futuro digital europeu e o papel de Portugal nesse movimento. Nas páginas seguintes, ficam as grandes ideias de cada sessão, pela voz dos seus protagonistas. 6 DE MAIO SESSÃO DE ABERTURA EUROPE AT A DEFINING MOMENT ROGÉRIO CARAPUÇA Presidente da APDC “A missão central da APDC é conectar: pôr em contacto todos os atores do mercado, promover iniciativas, trazer para discussão os temas fundamentais que afetam o setor e ajudar ao desenvolvimento do mercado. Mas queremos também ser 'thought leaders', liderar e catalisar, com as nossas opiniões, aquilo que pode ser o futuro do setor. Construímos documentos que apresentamos ao Governo e à sociedade civil, para que a opinião dos nossos associados seja conhecida, depois de discutida e consensualizada entre os vários atores do mercado. Somos uma associação de ecossistema, com operadores de telecomunicações, operadores de infraestruturas, plataformas tecnológicas, consultoras, empresas de tecnologia e media, com interesses diferentes que têm de ser consensualizados.” “A Reforma do Estado é uma enorme oportunidade de modernização e de desenvolvimento do país. Se tivermos um Estado mais eficiente, a servir melhor os cidadãos e as empresas, teremos um país completamente diferente, muito mais produtivo e mais hábil. O princípio ‘Only Once’ é, por si só, um programa de reformas: é muito simples, significa só pedir aquilo que é preciso e nunca pedir nada que não é necessário. Mas isso obriga a mudar a forma como o Estado interage connosco. E há uma questão fundamental para perceber como tudo isto vai correr no terreno: os incentivos que têm as pessoas, as empresas e os funcionários públicos.” “As empresas deveriam ter incentivos para serem grandes e não para continuarem pequenas. Hoje, os incentivos, designadamente fiscais, penalizam as empresas que querem crescer. Temos muitas empresas pequenas e microempresas e poucas empresas grandes. E há também um problema cultural: em Portugal, se alguma empresa se atreve a ter lucros de mais de mil milhões de euros, isso é visto quase como um escândalo. Não devia ser assim. Ter lucros é bom, ter lucros maiores do que estávamos à espera também é bom e deve ser celebrado. Também devem existir incentivos às fusões e aquisições, para ganhar escala e capacidade de investimento, em vez de se olhar apenas para os preços. Precisamos de regulação dinâmica, e não apenas de regulação estática. As reformas não se atingem só porque estão num documento.” 42 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | JUNHO 2026
ANTÓNIO GAMEIRO MARQUES Presidente do Congresso “No século XV, Portugal tinha soberania sobre o seu destino marítimo. Hoje, cabe-nos formular a pergunta imperativa: tem a Europa soberania sobre o seu destino digital? A resposta, se formos intelectualmente honestos, é simultaneamente perturbadora e desafiante. Dependemos de infraestruturas, plataformas, algoritmos, semicondutores e serviços cloud que, na sua maioria, não controlamos e cuja conceção e transformação são predominantemente efetuadas fora da União Europeia. E esta dependência tem riscos amplamente reconhecidos.” “A soberania tecnológica não é um luxo, mas uma condição de segurança e competitividade. O controlo do ciclo de vida dos artefactos digitais e dos dados é o novo vetor de poder. Quem o detém dita as regras e quem o ignora torna-se dependente. Soberania não significa isolamento. Significa capacidade de fazer escolhas autonomamente, de poder definir as regras do jogo e de proteger os dados dos cidadãos e das empresas, de acordo com os nossos princípios e valores.” “A Europa está finalmente a despertar, consciente de que tem de contar consigo para as questões essenciais. E o digital é essencial nas nossas vidas. Estamos a construir uma estratégia para transformar o nosso futuro digital. O nosso oceano desconhecido é hoje o ciberespaço, a inteligência artificial e a computação quântica. Os desafios da segurança digital são as novas tormentas que devemos saber dobrar com sucesso e em grande cooperação. Temos de decidir se queremos ser protagonistas da nossa história ou meros passageiros da história dos outros.” Mensagem do Presidente da República, António José Seguro “A Europa atravessa um tempo exigente, em que se tornaram mais visíveis as suas dependências tecnológicas e as suas vulnerabilidades estratégicas. O digital deixou há muito de ser apenas um setor ou uma especialidade. É hoje infraestrutura crítica, condição de soberania, fator de competitividade económica, instrumento de segurança e domínio central da própria vida democrática. É por isso que o debate sobre o futuro digital europeu não pode ser um debate apenas técnico. É um debate político, económico, ético e civilizacional.” “Num tempo em que a IA, os algoritmos e a economia dos dados moldam cada vez mais decisões, comportamentos e oportunidades, importa reafirmar um princípio simples: o progresso tecnológico não dispensa responsabilidade democrática. Pelo contrário, torna-a ainda mais necessária. Não podemos aceitar opacidade onde deve haver transparência. Não podemos aceitar exclusão onde deve haver acesso. Não podemos aceitar que a eficiência se sobreponha à dignidade, ou que a inovação enfraqueça direitos fundamentais.” “O nosso país dispõe de talento científico e tecnológico, de empresas inovadoras, de centros de investigação qualificados, de uma nova geração com ambição europeia e de condições para desempenhar um papel ativo neste caminho. Mas sabemos igualmente que há obstáculos a vencer: défices de produtividade, qualificações desiguais, burocracias persistentes e a necessidade de modernizar o Estado, reforçar a confiança digital e aproximar ainda mais a tecnologia da vida concreta dos cidadãos e das empresas. É nesse terreno que se joga uma parte importante do nosso futuro coletivo.” JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 43
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