À CONVERSA são terríveis. Criámos uma agência do zero. A questão era: o que é que vamos criar para o futuro, quando ninguém tinha um script? Eu tinha uma ideia, e todos nós tínhamos uma ideia: construir um ecossistema. Mas o ecossistema é construído com todos, e isso é complexo. Como é que me sinto? Sinto-me uma pessoa realizada, mas também um padre e um pedinte. Ou seja, no sentido de evangelizar, passar a palavra e unir, mas também de ser resiliente, particularmente nas mudanças dos governos. E tenho também a preocupação de deixar um legado. Nos meus 61 anos de vida, o que mais me preocupa é deixar algo que outros possam continuar a construir e a amplificar. NESTA ESTRATÉGIA QUE TEM DESENVOLVIDO, AS GRANDES EMPRESAS NACIONAIS DO SETOR DAS COMUNICAÇÕES E TECNOLOGIAS, ASSIM COMO DE OUTRAS ÁREAS, TÊM TIDO, OU PODEM TER, ALGUM PAPEL NA CRIAÇÃO DA PROCURA DE SERVIÇOS ESPACIAIS A PARTIR DE PORTUGAL OU DA EUROPA? Claro que sim. No último ano, e particularmente nas últimas semanas, comecei a ver algo muito interessante. Os grandes operadores, especialmente de telecomunicações, andavam tradicionalmente focados no seu negócio. Mas isso está a mudar. Se olharmos para a história das telecomunicações em Portugal, sempre fomos muito inovadores. Basta recordar o papel da PT Inovação, hoje Altice Labs, no desenvolvimento dos grandes sistemas tecnológicos do país e do mundo. O que vejo agora é estas empresas a olharem cada vez mais para o Espaço. Não isoladamente, mas para domínios tecnológicos transversais em que o Espaço é uma das peças. Falo de quatro domínios fundamentais: a IA, o quantum, o Espaço e a cibersegurança. E de outros temas ligados, nomeadamente a soberania digital. Um tema muito interessante prende-se com a forma como a guerra hoje é feita. É feita pela IA. Olhemos para o que se passa com a Anthropic ou, por exemplo, para o merging que está a acontecer entre a Airbus, a Thales e a Leonardo. Este negócio vai permitir colocá-los no top 10 das maiores empresas do mundo. É por aí que também vejo o futuro da Europa: nos mergings dos grandes players de vários países, que forçam os governos a ir atrás. Isto é technology-driven. É a liderança tecnológica que o faz. A LIGAÇÃO ENTRE A ECONOMIA ESPACIAL E A ECONOMIA DIGITAL, EM ÁREAS COMO A CIBERSEGURANÇA, IA, DADOS OU A CLOUD, AINDA NÃO É A QUE DEVERIA SER? Primeiro, não há fronteiras. Hoje, por exemplo, os dados gerados 26 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | JUNHO 2026
“É por aí que também vejo o futuro da Europa: nos mergings dos grandes players de vários países, que forçam os governos a ir atrás. Isto é technology-driven. É a liderança tecnológica que o faz.” pelas constelações de satélites medem-se em pentadados, o que está a provocar uma mudança de paradigma ao nível do storage e da cloud. Aqui, temos pela frente desafios brutais na componente da energia. É por isso que, hoje, o storage já não se mede em pentabytes, mas sim em quilowatts. É neste contexto que surge o desafio do storage in orbit. Ou seja, a possibilidade de criar grandes infraestruturas de armazenamento de dados em órbita. Mas isso volta a colocar-nos perante a questão das dependências. Só o consegue fazer quem tiver um custo de acesso ao Espaço menor. Essa vantagem está sobretudo nos EUA. Por isso, a Europa tem de ter capacidade de colocar astronautas em órbita, para permitir a fabricação em órbita e o new in orbit servicing. Essa é uma das grandes discussões que estamos a preparar para a próxima reunião inter-ministerial da ESA, em novembro. A Europa também terá de ter o “seu Artemis”. OS SEIS SATÉLITES LANÇADOS ESTE ANO POR PORTUGAL PARA CRIAR UM SISTEMA DE NAVEGAÇÃO MARÍTIMA DE USO CIVIL E MILITAR FOI UMA DEMONSTRAÇÃO DA NOSSA CAPACIDADE INDUSTRIAL OU APENAS UMA FASE DE VALIDAÇÃO TECNOLÓGICA? As duas coisas, porque estamos também no início de um novo standard. Hoje, temos iniciativas muito relevantes em Portugal. Uma delas é a Constelação do Atlântico, uma iniciativa europeia que nos pode projetar para outra dimensão. Outra prende-se com o desenvolvimento de capacidades como o VDES da LusoSpace. Trata- -se de uma evolução tecnológica muito bem conseguida, desenvolvida em conjunto com a empresa europeia Clyde Space, para criar o que designam como um “Waze marítimo”. Ou seja, um sistema de navegação marítimo, extremamente importante para a navegação autónoma. É este tipo de iniciativas que Portugal tem de entregar. E está a entregar. O desenvolvimento destas capacidades é uma afirmação tecnológica, mas também comercial. Temos de posicionar- -nos cada vez mais na prestação de serviços. Esses serviços também servem a defesa: são todos de dual use. Durante muito tempo, foi a defesa que impulsionou a tecnologia no domínio civil. Hoje, acontece o contrário. É o setor civil que faz o push tecnológico e, depois, o setor militar utiliza-o. Temos como exemplo o que se passa na guerra da Ucrânia, com a utilização do Starlink pelas Forças Armadas. O QUE É QUE SERIA, PARA SI, UMA VERDADEIRA HISTÓRIA DE SUCESSO DA ECONOMIA ESPACIAL PORTUGUESA? Diria que uma verdadeira história de sucesso assenta em três pilares. Primeiro, todos terem consciência de que Portugal e a sua agência espacial têm de ter um Programa Nacional e um fundo para o implementar. Todos os países o têm, Portugal ainda não. Segundo, todas as iniciativas que estamos a desenvolver - os nossos satélites, os nossos operadores e os nossos serviços - serem complementadas por um ato de soberania. Ou seja, serem lançadas em território nacional, a partir do acesso ao Espaço no Hub de Santa Maria que está a ser construído. Temos de estar em toda a cadeia de valor, desde o desenvolvimento das nossas capacidades até ao lançamento e à operação. Em terceiro, utilizar as capacidades de ciência e tecnologia impressionantes que temos e colocá-las ao serviço do país e do novo desígnio da exploração espacial europeia. Temos de estar na exploração espacial. ISSO VAI SER CONSEGUIDO ATÉ 2030? NÃO ESTÁ A SER DEMASIADO AMBICIOSO? Acho que, à nossa escala, vamos conseguir. Não acho que esteja a ser demasiado ambicioso. A primeira parte - a criação de um Programa Espacial Nacional - talvez seja o mais difícil. Mas, se seguirmos os bons exemplos do que se faz lá fora, acho que facilmente o conseguimos ultrapassar. COMO É QUE COORDENA A SUA PAIXÃO AVASSALADORA PELA ÁREA ESPACIAL COM A SUA FAMÍLIA? Tive um percalço muito grande na minha vida. Digo-o como contributo. Perdi a minha mulher neste trajeto. Mas a minha mulher permitiu-me estar aqui e falar como falo. Fiquei com as minhas duas filhas pequeninas. Hoje, já são mais crescidas e são umas meninas impressionantes. Isso ajuda-me muito. Também gosto muito das pessoas com quem trabalho. Prezo as amizades, a honestidade e a transparência. Sinto-me um privilegiado. Todos nós aqui somos privilegiados, porque tivemos a oportunidade de fazer o que muito pouca gente faz: construir algo de raiz. Fazemos coisas absolutamente impressionantes. A nível da educação, por exemplo, lançámos programas que a Europa depois copiou: é o caso do “astronauta por um dia”, da competição de rockets, da competição de satélites de universidades. Tudo isso motiva-nos e dá-nos o ímpeto para continuar. Mas também acredito que é necessária renovação. Por onde passo, gosto de fomentar as novas gerações para continuarem aquilo que começámos. Gostava que isso acontecesse aqui. E gostava de deixar um legado: contribuir para algo melhor. JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 27
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