À A CONVERSA ABRIR AÇORES: PORTA EUROPEIA PARA O ESPAÇO? A localização geográfica dos Açores está a transformar o arquipélago num dos ativos estratégicos de Portugal para a economia espacial. O projeto do Atlantic Spaceport Consortium (ASC) prevê a instalação, na ilha de Santa Maria, da primeira infraestrutura portuguesa dedicada ao lançamento comercial de pequenos satélites para órbita. Em 2025, foi atribuída a primeira licença de operação, abrindo caminho para os voos inaugurais e para a criação de um novo polo europeu de acesso ao Espaço. E a ambição vai muito além da construção de uma base de lançamento. O objetivo é desenvolver um ecossistema que integre operadores de lançadores, fabricantes, empresas tecnológicas, centros de investigação e serviços de apoio, beneficiando da posição privilegiada do arquipélago no Atlântico e da proximidade às principais rotas orbitais. Santa Maria acolhe já uma estação da rede Estrack, da Agência Espacial Europeia, utilizada no acompanhamento de lançamentos e na receção de dados de satélite, reforçando a vocação espacial da ilha. Ricardo Conde vê esta vantagem geográfica como uma oportunidade estratégica para Portugal. A possibilidade de lançar satélites a partir de território nacional, associada ao desenvolvimento da Constelação Atlântica e ao reforço da indústria espacial, poderá posicionar o país como um dos principais nós europeus da nova economia do Espaço, tirando partido da sua dimensão atlântica e da crescente procura mundial por serviços de acesso ao espaço. uma dimensão estratégica, onde a componente da segurança e da defesa ganham uma importância crescente. Qual é a opção? É muito simples: valorizar o nosso território terrestre e marítimo, sobretudo o marítimo. E aqui entra uma dimensão fundamental: a segurança. Em 1994 ou 1995 tive a oportunidade de conhecer o Buzz Aldrin. Disse-me algo impressionante: “Vocês não sabem o país que têm, pela dimensão da atlanticidade”. O Atlântico é um potencial ainda por realizar. A nossa evolução no Atlântico passa pela capacidade de contribuirmos para a proteção da Europa. É neste contexto que se inserem iniciativas como o European Space Shield, onde temos um papel fundamental, o acesso ao Espaço, o retorno de missões espaciais, onde estamos extremamente bem posicionados, e projetos como a Constelação do Atlântico. Temos de ser responsáveis pela ideia de que: “Nós não somos marginais na Europa, nós não somos centrais no Atlântico. Nós trazemos o Atlântico para a Europa”. Dar dimensão à Europa é nossa responsabilidade. É NESSE ÂMBITO QUE TEM REFERIDO QUE PORTUGAL ESTÁ NO MOMENTO DE ‘ENTREGAR’? O Espaço tem de ‘entregar’, para que o cidadão comum perceba a sua utilidade. O Espaço já faz parte do nosso dia a dia - nos telemóveis, no boletim meteorológico... - mas ainda não existe uma verdadeira consciência dessa ligação. O Espaço também tem de estar no domínio do que entendemos como serviço público. Por exemplo, estamos a aproximar-nos da época dos incêndios. Com a evolução a que estamos a assistir nas constelações de satélites, enquanto cidadão, quero ter acesso a sistemas de aviso prévio e integrados nos sistemas existentes. O Espaço tem de estar ao serviço dos cidadãos. MAS COMO É QUE SE CONSTRÓI UMA ESTRATÉGIA ESPACIAL REALISTA PARA UM PAÍS COMO O NOSSO, DE MÉDIA OU PEQUENA DIMENSÃO E RECURSOS LIMITADOS, SEM SE SER DEMASIADO AMBICIOSO NEM CRIAR DEMASIADAS EXPECTATIVAS? Ambiciosos temos de ser, sempre. A inovação vem atrás da ambição. Sinto muito orgulho naquilo que temos feito desde a criação da Agência Espacial Portuguesa. Houve, de facto, uma mudança de paradigma. Não se falava de Espaço, agora fala-se muito. Conseguimos colocar agenda do Espaço na Agenda Estratégica Nacional. Isso foi feito paulatinamente, a todos os níveis: na educação, na literacia, na diplomacia espacial e também nos Ministérios. Conseguimos que o PRR olhasse para o Espaço. Agora, é preciso olhar para tudo isto e perceber quais são as escolhas que Portugal pode fazer. E isso está a ser feito. Nós contribuímos para a construção da soberania da Europa, mas não o faremos sozinhos. Podemos desenvolver algumas capacidades que nos valorizem, como o acesso ao Espaço ou o retorno de missões espaciais, beneficiando da nossa geografia, mas temos de o fazer em parceria e com uma lógica de mercado. A construção da resiliência no acesso ao Espaço faz-se com os operadores que estão a construir os seus próprios rockets na Europa e que podem olhar para os Açores como uma oportunidade. É isso que estamos a procurar fazer, em articulação com os programas espaciais da União Europeia e da Agência Espacial Europeia, adequando a nossa estratégia às oportunidades. O VOSSO RELATÓRIO DO 2.º SEMESTRE DO ANO PASSADO DIZIA QUE, NESTE MOMENTO, EXISTEM 87 EMPRESAS EM PORTUGAL, A MAIOR PARTE PRIVADAS, A INVESTIR NESTA ÁREA. JÁ PODEMOS FALAR DE UMA INDÚSTRIA DO SETOR ESPACIAL? O mercado espacial é um mercado muito institucional: sempre o foi e sempre o será. A defesa, segurança, observação da Terra ou gestão do território enquadram-se todos nessa lógica. Por isso, as empresas estão necessariamente ligadas ao investimento público. É assim em Portugal e em qualquer outro país. Mas também podemos prestar serviços para Estados e ecossistemas estrangeiros. É aí que se enquadra o conceito de ‘New Space Economy’. Quando olhamos para o cenário português, ainda estamos muito distantes dessa realidade e de contratos privados. 24 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | JUNHO 2026
neste setor, representa uma transformação profunda. A terceira é a perspetiva do valor acrescentado bruto criado. Fizemos esse estudo e verificámos que, por cada euro investido, são gerados 2,71 euros de valor acrescentado bruto. É um valor superior ao de alguns setores da economia. Portanto, estamos numa fase de grande transformação. Mas os investimentos vão acabar... “Estamos a trabalhar em projetos, mas temos de dar o salto para o mercado. Falta alavancar os negócios com capital privado. E qual é o papel que cabe ao setor público? Ser o 'Anchor Customer', ou seja, assegurar o contrato.” Estamos a trabalhar em projetos, mas temos de dar o salto para o mercado. Falta alavancar os negócios com capital privado. E qual é o papel que cabe ao setor público? Ser o 'Anchor Customer', ou seja, assegurar o contrato. Em Portugal, ainda falta alinhar melhor o procurement público com este setor e atrair mais investimento privado. É por aí que tem de ser feito o crescimento. ATRAVÉS DA AGENDA MOBILIZADORA NEW SPACE PORTUGAL, O SETOR CONTOU COM 417 MILHÕES DE EUROS DO PRR, UM DOS MAIORES INVESTIMENTOS JÁ REALIZADOS NESTA ÁREA. QUAIS SÃO OS RESULTADOS E COMO É QUE ESTES SE MEDEM? Neste momento, os resultados medem-se em três frentes. A primeira é a maior penetração de Portugal em algumas áreas geográficas. Isto já é visível e será ainda mais evidente à medida que começarmos a lançar, com mais cadência, os nossos satélites, e a disponibilizar os nossos serviços. A segunda é a fixação de massa crítica em Portugal. Já começa a existir uma base industrial e isso, ESTÁ A FALAR DE UMA DEPENDÊNCIA DOS DINHEIROS PÚBLICOS? Sim, mas essa dependência sempre existirá. Se consideramos que a defesa, segurança e gestão do território são temas do domínio público, estamos perante mercados institucionais. Na nossa estratégia de digitalização e de desenvolvimento de deep tech, o procurement público desempenha um papel fundamental. O Estado tem necessidades nas áreas das infraestruturas, dos sistemas operacionais ou da defesa, e é aí que as nossas empresas têm de dar respostas. Neste setor, muitas empresas ainda não estão capacitadas, mas estão no caminho. E isso resulta precisamente do investimento público que tem vindo a ser feito. Acho que o Governo tem dado sinais absolutamente fantásticos, ao apostar nestas áreas. Espero que aconteça o mesmo no quantum, uma das áreas que estamos também a tentar colocar no mapa. Tenho a certeza de que, a partir de 2027, estaremos posicionados de forma diferente. Não poderia ser de outra maneira. Caso contrário, repetiríamos erros do passado. O SEU PAPEL, COMO LÍDER DA AGÊNCIA ESPACIAL, É, NO FUNDO, CRIAR O ECOSSISTEMA: JUNTAR ACADEMIA, EMPRESAS E ESTADO. COMO É QUE TEM DECORRIDO ESSE PROCESSO DE ENVOLVIMENTO E DE COLABORAÇÃO, NO SENTIDO DE CONSTRUIR A VERDADEIRA ECONOMIA ESPACIAL? Hoje está muito melhor, mas o início e as dores de crescimento JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 25
Live Talks: conversas para aprofund
DA PRESSÃO TECNOLÓGICA À EXECUÇ
PREPARAR A CIBERSEGURANÇA PARA A E
“A primeira ligação transfronte
Transformar as TI para o futuro do
cadeia de valor, enquadramento regu
JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES
Tiago Barroso não se separa do sma
Devem, designadamente, ser colocado
B.I. Ano de adesão à APDC 1998 Á
pela gestão e transformação de o
ESTARÁ A IA A COMPROMETER O TALENT
UM GUIA DE CARREIRAS À PROVA DA IA
A REINVENÇÃO DA ARQUITETURA DO TR
REGULAÇÃO NUM SETOR EM TRANSFORMA
Reveja o evento Aceda à galeria de
JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES
A Direção da APDC, liderada por R
Num mercado de trabalho cada vez ma
DA PROVA DE CONCEITO À IA EM PRODU
A melhor experiência de rede MEO 5
Carregando...
Carregando...