À A CONVERSA ABRIR “Não se pode falar em resiliência e autonomia europeia se não tivermos a construção da autonomia digital como base. Este é o pilar da construção de qualquer soberania.” Na pandemia, estivemos de mão estendida a pedir que nos vendessem máscaras. Desindustrializámo-nos e apostamos tudo no ‘cavalo social’, o bem-estar social. O terceiro pilar em que ‘perdemos o pé’ foi na defesa e em colocar em discussão a nossa soberania. Temos dificuldade em unir-nos em torno de uma defesa comum europeia e só reagimos quando estamos sob ameaça comum. É o que está a acontecer e que justifica o atual reinvestimento em defesa. Há ainda uma outra componente gritante com que estamos confrontados: a soberania digital. Este foi, aliás, o tema do último Congresso da APDC. Não se pode falar em resiliência e autonomia europeia se não tivermos a construção da autonomia digital como base. Este é o pilar da construção de qualquer soberania. No digital, se pedir ao governo ou à Comissão Europeia para me proteger, eles nada podem fazer, porque nada está na Europa. Temos de ter a nossa própria capacidade. VAMOS A TEMPO DE O CONSEGUIR? Vamos. Mas por necessidade e não por estratégia. Quando é assim, faz-se a correr e é-se pouco eficiente. Grande parte do investimento que hoje vemos na defesa e na segurança é por reação. Hoje, a guerra faz-se noutros domínios tecnológicos, o Espaço e o ciberespaço, e com mais impacto. Na cibersegurança, por exemplo, a Rússia, EUA e China têm perfeitamente identificadas as vulnerabilidades de cada país. Só lhes falta ‘carregar no botão’ para nos pararem de um momento para o outro. O sistema GPS é um bom exemplo. Foi testado na Segunda Guerra do Golfo, mas não é uma arma militar, é uma arma económica. Hoje, se o GPS falhasse, a economia mundial colapsava de um dia para o outro. Muitas vezes não nos apercebemos da nossa completa dependência. E NO ESPAÇO? Passa-se o mesmo. Quem controla o acesso ao Espaço são os EUA, China e Rússia, as denominadas Space Powers. Enquanto isso, a Europa faz satélites. Mas já estamos na fase da economia espacial - o Next Space e já não o New Space, o que significa que a Europa tem de chegar a outro patamar. Claro que as constelações de satélites são necessárias, mas as grandes empresas já têm essa vantagem. A Starlink vai evoluir para um sistema Direct-to-Device. A SpaceX fez 294 ou 295 lançamentos no ano passado, enquanto a Europa fez seis. É uma questão de escala. Na prática, a escala é o que muda o paradigma. A Starlink mudou o paradigma das comunicações móveis, a Vodafone prepara-se com uma mega constelação para o Direct-to- -Device, a Amazon prepara-se com um projeto de evolução do Kuiper. Uma dimensão das “novas forças produtivas de qualidade” da China é ter três operadores globais do Direct-to-Device. Há a perspetiva de ter uma constelação de 300 mil satélites. O Elon Musk tem 10 mil. Perante isso, como é que a Europa se posiciona? Esse é que é o problema. 22 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | JUNHO 2026
SEIS SATÉLITES, UMA NOVA INDÚSTRIA MAS JÁ ESTÁ A SER ADOTADA UMA NOVA ESTRATÉGIA, COM O ESPAÇO A SER INTEGRADO NA SOBERANIA EUROPEIA. ESTAMOS NO BOM CAMINHO? OU NÃO? Neste contexto, há vários players. Há um player de desenvolvimento de capacidades: a Agência Espacial Europeia, onde Portugal se desenvolveu em termos de capacidades. Há um player absolutamente fundamental, que é a Comissão Europeia, e a União Europeia, através das suas agências. E há os novos programas espaciais da União Europeia que têm, de facto, uma dimensão de soberania. Essa soberania é a grande perspetiva. Hoje, o Espaço tem uma dimensão estratégica porque vai dar à Europa, em algumas áreas, a possibilidade de observar, comunicar e de se posicionar. Se a Europa não tiver um grande programa direcionado para suprir os chamados gaps de serviços, serão outros, em particular os EUA, a fazê-lo. Este é o momento e a estratégia que tem de ser adotada. E é o que está a acontecer. Mas há uma questão de segundo nível que tem de ser considerada: a fragmentação. Nesta confederação, que é uma “federação de boas e más vontades”, os países têm sempre a necessidade de olhar primeiro para si. A Europa é fragmentada politicamente e isso faz com que os países construam também os seus próprios programas. Alguns, como a Alemanha e a Polónia, estão a rearmar-se, incluindo na componente espacial, de uma forma nunca antes vista. A grande preocupação da Comissão Europeia é perceber como se agrega tudo isso num esforço comum. Isto é discutir a Europa. É discutir a capacidade de fazer o “pull and share” das capacidades. Só que, por natureza, somos todos diferentes. Isso explica porque é que na Europa tudo demora tanto tempo a decidir. PORTANTO, ESTÁ PESSIMISTA EM RELAÇÃO AO FUTURO EUROPEU? Não diria isso. Temos sempre de inventar um “inimigo comum” para nos unir. Hoje temos esse “inimigo comum”. Aliás, temos bastantes. Foi um dos momentos mais relevantes da história do setor espacial nacional: o lançamento de seis novos satélites portugueses, ocorrido a 30 de março deste ano. A missão, realizada a partir da Base de Vandenberg, na Califórnia, colocou em órbita quatro satélites da Constelação Lusíada, dedicados às comunicações marítimas, um satélite radar (SAR), da Força Aérea Portuguesa, e um satélite ótico de observação da Terra, desenvolvido pelo CEiiA. Todos foram concebidos e produzidos em Portugal, no âmbito da estratégia New Space Portugal, com financiamento do PRR. O projeto envolveu algumas das principais empresas e entidades do ecossistema espacial português. A LusoSpace liderou o desenvolvimento dos quatro satélites da Constelação Lusíada (Camões, Pessoa, Agustina e Saramago), que constituem uma das primeiras capacidades portuguesas da futura Constelação Atlântica. Promovido por Portugal e Espanha, este é um dos mais ambiciosos projetos espaciais europeus e prevê a criação de uma rede de satélites destinada a fornecer dados e serviços para vigilância marítima, monitorização ambiental, proteção civil, gestão do território, segurança e economia azul. Os satélites da Constelação Lusíada serão dedicados às comunicações e navegação marítima em tempo quase real, reforçando a monitorização do Atlântico e contribuindo para esta futura infraestrutura europeia. Já o satélite ótico VHRLight NexGen foi desenvolvido pelo CEiiA, em colaboração com a N3O e parceiros internacionais, destinando-se à observação da Terra para aplicações como monitorização ambiental, agricultura de precisão, proteção civil e segurança. A missão incluiu ainda um satélite radar da Força Aérea Portuguesa, que vem reforçar as capacidades nacionais de observação da Terra em qualquer condição meteorológica. Mais do que um lançamento, esta missão demonstra a maturidade alcançada pela indústria espacial portuguesa. Nas últimas duas décadas, o país passou de utilizador de tecnologia espacial para produtor de sistemas, equipamentos e serviços, contando hoje com dezenas de empresas e centros de investigação especializados. Os satélites agora colocados em órbita constituem também um dos primeiros resultados concretos da Agenda Mobilizadora New Space Portugal, que passou a dispor de cerca de 417 milhões de euros após a reprogramação do PRR. O objetivo é consolidar uma cadeia de valor nacional capaz de desenvolver tecnologia, criar propriedade intelectual, atrair investimento e competir nos mercados internacionais, posicionando Portugal como um parceiro relevante na nova economia espacial europeia. A ameaça é grande, as nossas fraquezas são inúmeras e já estão expostas. E nunca houve tanto dinheiro disponível como agora. Temos também de encontrar e definir outros parceiros. E o nosso parceiro deve ser o mundo. Devemos ter relações com o Canadá, o Japão, a Índia, a Indonésia, o Brasil e a China. Temos é de saber dosear essas relações. A AGÊNCIA ESPACIAL PORTUGUESA FOI CRIADA, EM 2019, PARA EXECUTAR A ESTRATÉGIA NACIONAL PARA O ESPAÇO, APROVADA UM ANO ANTES. COMO ESTÁ HOJE ESSA ESTRATÉGIA: NUMA FASE DE CONSOLIDAÇÃO, DE EXECUÇÃO PLENA OU DE REVISÃO, FACE AOS CONDICIONALISMOS ATUAIS? Uma estratégia é um documento orientador que tem de interpretar as circunstâncias e definir novos caminhos. Dito de forma breve, a Estratégia Nacional para o Espaço deve interpretar o contexto onde estamos, essencialmente europeu, valorizar o talento e a necessidade de nos transformarmos digitalmente, reforçar a sustentabilidade e contribuir para a construção da resiliência portuguesa e europeia. Deve também avaliar como é que estamos alinhados nesta nova perspetiva, em que o Espaço é JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 23
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