À A CONVERSA ABRIR COMO É QUE O SETOR ESPACIAL ENTROU NA SUA VIDA? Comecei a trabalhar nesta área em 1992, há mais de 30 anos. Mas a paixão é anterior. Diria que somos fruto das encruzilhadas da vida e das oportunidades que os sentidos, o bom senso e também uma certa ingenuidade nos levam a aceitar. Sou da geração da ponte aérea, daqueles que vieram de Angola sem nada e tiveram de reinventar a vida. Sempre fui muito habilidoso e tive várias paixões. Sou um excelente mecânico e um apaixonado pelos Land Rover, tive uma oficina de reparação de eletrodomésticos. E como na altura não tínhamos muito dinheiro, durante muitos verões também trabalhei na Suíça na apanha da framboesa, dos damascos e das cebolas. Foi uma experiência muito dura, mas aprendi uma lição que ainda hoje procuro aplicar: o trabalho tem de ser valorizado. Com o dinheiro que ganhei na Suíça comprei um osciloscópio e comecei a descobrir o mundo. Sou também do tempo das carrinhas da Fundação Gulbenkian, onde comecei a descobrir livros de eletrónica e os livros do Eurico da Fonseca sobre o Espaço. Com o dinheiro que ganhei, depois da tropa, vim estudar para Lisboa. Sempre tive muita apetência pela eletrotecnia, em particular pelas telecomunicações. Estudei no Instituto Superior Técnico e durante muito tempo trabalhei no centro de fusão nuclear, em áreas como lasers, refletometria e interferometria. Sempre gostei disso. Fazia-o no Técnico, onde também dava aulas. MAS EM TERMOS PROFISSIONAIS, QUANDO CONCRETIZOU A LIGAÇÃO AO ESPAÇO? Na década de 90 aconteceu algo impressionante: quem saía da universidade na minha área podia, literalmente, escolher onde queria trabalhar. Foi uma época de boom das telecomunicações e dos móveis. Os operadores não tinham massa crítica, éramos muito poucos. Na altura, fui trabalhar para a Alcatel. Mas, entretanto, em 1993, surgiu a oportunidade de participar no projeto do primeiro satélite português, do meu amigo Carvalho Rodrigues. Entrei já numa fase avançada do projeto e, como tenho várias competências em eletrónica e telecomunicações, comecei a trabalhar no ground segment, nas estações. Cheguei inclusivamente a criar uma empresa para desenvolver estações para pequenos satélites, os designados Oscars. O PROGRAMA PoSAT ACABOU POR NÃO IR PARA A FRENTE... Não foi. Em certa medida, tratou- -se de uma oportunidade perdida. Em 1998/1999, com mais quatro pessoas, ainda lançámos as bases para criar uma agência espacial. Foi criada, mas não foi para a frente. Foi demasiado visionário para a época. Mas, na altura, Portugal também entrou na Agência Espacial Europeia e começou-se a fazer um percurso diferente. Aliás, esse talvez tenha sido um dos grandes milestones estratégicos do país. Percebemos que, se não sabíamos e não tínhamos capacidade para fazer, devíamos juntar-nos a quem o sabia e trazer esse conhecimento e capacidade para Portugal. E, de facto, foi o que aconteceu. Permitiu-nos criar uma série de coisas e ter a perspetiva de domínio espacial. NESSE DOMÍNIO, QUAIS SÃO AS PERSPETIVAS DE CAPACITAÇÃO? São três ou quatro as nossas grandes perspetivas de capacitação tecnológica. A primeira tem de ser a nossa soberania digital, sobre a qual se começa a revelar alguma inquietação. A segunda dimensão relaciona-se com a profunda transformação e impacto social que a inteligência artificial (IA) vai provocar. É vertiginoso o que vai acontecer e terá uma grande implicação no futuro da exploração espacial. Uma outra dimensão, que agora se começa a falar e que é uma área de convergência tecnológica para o futuro, são as comunicações quânticas. E a outra dimensão 20 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | JUNHO 2026
“Há dois caminhos que vão convergir tecnologicamente: a IA e a computação quântica, uma tecnologia ainda muito incipiente, mas que atingirá a sua plenitude daqui a 10 ou 15 anos.” é o Espaço. Hoje, vemos o Cosmos e o Espaço apenas numa perspetiva tecnológica e olhamos para os satélites como uma commodity. Mas o Espaço não é só isso: é uma projeção do que será o nosso futuro. Há dois caminhos que vão convergir tecnologicamente: a IA e a computação quântica, uma tecnologia ainda muito incipiente, mas que atingirá a sua plenitude daqui a 10 ou 15 anos. Essa convergência permitir-nos-á, de alguma forma, ultrapassar as nossas vulnerabilidades e dar-nos a resistência que nos permitirá viver aqui [na Terra] em condições de escassez associadas às alterações do clima e às ondas do colapso da biodiversidade. Mas vamos também criar as condições para, eventualmente, termos o futuro do homem como ser cósmico, tornando-nos uma espécie interplanetária. MAS A REALIDADE MOSTRA UM MUNDO DOMINADO POR MEIA DÚZIA DE GRANDES GRUPOS DE DOIS OU TRÊS PAÍSES, COM MEROS INTERESSES ECONÓMICOS. QUAIS SERÃO AS CONSEQUÊNCIAS DESTA SITUAÇÃO? No que respeita ao domínio de algumas Space Powers e Tech Powers, diria que caiu o pano sobre a ordem mundial que conhecíamos. Durante décadas, habituámo-nos a encarar a paz como um dado adquirido e a guerra como uma exceção. Agora, estamos a voltar à realidade. Se lermos a história do Triunvirato da Antiga Roma, ela mostra que, quando há três, há sempre a conspiração de dois para derrubar o terceiro. Hoje vemos algo semelhante. Os EUA, a China e a Rússia afirmam-se como grandes potências através das designadas “novas ferramentas de poder”: ou seja, a tecnologia. Se olharmos para a China, há 15 ou 20 anos lançou as “novas forças produtivas” e definiu um conjunto de objetivos a atingir num prazo de 15 anos. Queriam ser líderes a nível global na mobilidade através de três marcas e hoje têm a Xiaomi, a Xpeng e a BYD, que são campeãs de vendas. Queriam ser eles a fornecer ao mundo a sustentabilidade da transição energética e hoje temos o lítio e os materiais raros para aplicação em painéis solares e geradores eólicos. Depois, queriam trabalhar na biotecnologia e na genética e serem os líderes da IA. E ainda trabalhar no quantum e liderar a componente das comunicações seguras - as comunicações de futuro - não só na supercomputação, mas também na distribuição de chaves quânticas e no quantum sensing. E por último, traçaram o objetivo do Espaço. O resultado deste long-term plan é a China que hoje conhecemos. NO CONTEXTO ATUAL, ONDE FICA A EUROPA, NA SUA PERSPETIVA? Ainda acho que a Europa é o melhor lugar para viver, mas temos de olhar para o que se passa cá. Nos últimos 15 anos, a Europa habituou-se à energia barata da China, desenergizou-se, desistiu do ‘Santo Graal’ da energia, a energia nuclear, e desindustrializou-se. Optámos pela opção suicida dos EUA do “Designed in Cupertino, Made in China”. Fizemo-lo com a Airbus, a BMW e outros. Em termos de capacitação industrial, a China tornou-se o supermercado do mundo. DE CABINDA AO ESPAÇO: UM PERCURSO FEITO DE VISÃO E CONSTRUÇÃO Nasceu em Cabinda, Angola, em 1965, filho de pais portugueses, e chegou a Portugal na vaga dos retornados que, a partir de 1975, deixaram as antigas colónias. Cresceu em Vila Nova de Cerveira, num ambiente rural que lhe incutiu uma forte ligação à terra. Durante vários verões trabalhou na Suíça, na apanha da fruta, para financiar os estudos. Foi com esse dinheiro que comprou um osciloscópio e aprofundou uma paixão antiga pela eletrónica, alimentada também pelos livros que descobria nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico, onde também lecionou, entrou no setor espacial em 1993, integrando o projeto do primeiro satélite português. Desde então, participou em programas nacionais e internacionais nas áreas das telecomunicações, radiofrequência e engenharia de sistemas espaciais, acompanhando praticamente toda a evolução da indústria espacial portuguesa. Desde 2020, lidera a Agência Espacial Portuguesa, procurando afirmar o Espaço como uma prioridade estratégica para o país. Defende que Portugal deve participar em toda a cadeia de valor da economia espacial - da investigação e desenvolvimento ao acesso ao Espaço, passando pela indústria, operação de serviços e participação nos grandes programas europeus. Para Ricardo Conde, a posição atlântica do país representa uma vantagem competitiva que Portugal deve colocar ao serviço da Europa. Representante português e chefe de delegação no Conselho da ESA, no ESO e no SKAO, presidiu ainda à Rede Eureka em 2022 e foi distinguido com a Medalha de Mérito Científico em 2024. Mas, quando fala do seu percurso, regressa frequentemente ao legado que pretende deixar. Pai de duas filhas, considera que o verdadeiro sucesso não está apenas no que construiu, mas nas condições que conseguir criar para que outros possam continuar a construir. JUNHO 2026 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 21
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