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COMUNICAÇÕES 240 - Fernando Alfaiate: o homem do PRR

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management 48 Estão a proliferar de tal forma que até ganharam designação própria – YOLO – que não é mais do que o acrónimo de “you only live once”, o mantra destes profissionais. Encontram-se todos a meio da sua vida ativa, suficientemente maduros para não se confundirem com os millenials, a geração que pela primeira vez pôs em causa os tradicionais vínculos laborais, mas ainda com tempo útil para encarar uma mudança radical como algo plausível. Passaram dos 40 anos, podem até já ter ultrapassado os 50, e agora reivindicam, como a geração dos seus filhos, maior realização pessoal e profissional. Também têm pressa, não a que resulta da inquietude juvenil, mas a que se sustenta num argumento irrefutável: se não mudarem já, perdem a oportunidade da sua vida, pois o tempo não corre a seu favor. Como é que profissionais a caminho das duas décadas de vida ativa, já com carreiras estruturadas e formados numa cultura laboral que estimulava a criação de laços estáveis com as entidades empregadoras, mudam assim de perspetiva? Ironicamente alguns, já com filhos adultos, não há muito tempo criticavam a cultura millenial, apelidando-a de irresponsável. Agora, embora por razões diferentes, acabaram por tirar conclusões idênticas: a de que a estabilidade na carreira perdeu valor para a liberdade e realização. Esta atitude, no que diz respeito aos jovens, radica nos baixos salários e precariedade com que se deparam à entrada do mercado de trabalho. Com os mais velhos é diferente. Segundo diversos analistas, eles fazem este twist devido, sobretudo, à pandemia. Quem tem crianças pequenas pode ter passado um mau bocado durante o lockdown, mas os mais velhos descobriram que é possível entregar trabalho sem quebras de produtividade, com horários flexíveis e a partir do conforto doméstico. Sentiram, como nunca antes, Quando confrontados com a possibilidade de morrer por Covid, muitos interrogaram-se sobre o propósito das suas vidas as delícias da autonomia, com um bónus adicional: ganharam mais tempo para estar com a família. Um estudo recente da Microsoft revelou que mais de 40% dos trabalhadores a nível global ponderam uma mudança de emprego em 2021. Muito frequentada pelos trabalhadores da área tecnológica, a rede social Blind veio confirmar esta tendência, ao revelar que 49% dos seus utilizadores estão disponíveis para mudar de emprego este ano. Não deixa de ser estranho que esta tendência se tenha formado quando, no mundo inteiro, a instabilidade laboral e o desemprego aumentaram de forma dramática na sequência da crise pandémica. Mas contextos complexos geram respostas complexas, e a reação à Covid-19, que afetou não só a economia e o emprego, como a vida familiar, afetiva e a saúde física e mental de uma percentagem significativa de pessoas, esteve longe de ser linear. A psicóloga Maria Coelho Rosa, que se considera, ela própria, uma YOLO, lembra o choque que foi, de repente, toda a gente ser confrontada com a morte. A sua e a dos outros, nomeadamente a dos seus entes queridos. A possibilidade de um desfecho trágico acontecer de um momento para o outro e de uma forma tão dramática criou, na sua opinião, um novo sentido de urgência: “Acho que foi tudo muito espoletado pela ideia de ‘e se eu morro amanhã?’. Foi então que as pessoas começaram a perguntar-se: ‘A que dou realmente valor na minha vida? O que vivi até agora? Como vivi? Como quero viver daqui para a frente?’”. A sua perceção é a de que, mesmo os profissionais que estão estáveis no mercado de trabalho, começaram a valorizar mais a flexibilidade do que a segurança: “Tenho vários amigos a pensar em despedir-se porque não estão a aguentar a ideia de voltar ao antigo formato. Sentem que se forem pressionados a fazê-lo é por uma questão de controlo e não de produtividade, pois eles produziram tanto ou mais quando se encontravam em teletrabalho. E se assim for, o efeito é mortal, porque põe a descoberto a falta de confiança que existe na relação laboral”. Para Maria Coelho Rosa é evidente que

A psicóloga Maria Coelho Rosa, que se considera, ele própria, uma YOLO, diz que “não é possível voltarmos a 2019, porque todos nós mudámos” “não é possível voltarmos a 2019, porque todos nós mudámos. Este período foi difícil, mas teve o mérito de nos convidar a repensar a vida”. No seu caso, o wake up call aconteceu muito antes da pandemia, na sequência de uma crise familiar: “É sempre assim, quando passamos por coisas que nos marcam como um divórcio, uma perda, uma doença grave. Essas experiências podem levar-nos a equacionar a nossa vida e a procurar um propósito”. Tinha um emprego estável, numa instituição pública, mas meteu uma licença sem vencimento. Passou por um grande processo de questionamento. Fez voluntariado fora do país, aprendeu novas abordagens no âmbito da psicologia comunitária, uma das áreas em que se especializou. No regresso, assumiu responsabilidades no desenvolvimento de um programa de responsabilidade social das empresas, mas estava mudada: “Aquilo que acabei a fazer não correspondia ao meu ideal, embora tenha conhecido muitas pessoas interessantes e bem-intencionadas”. Pediu nova licença sem vencimento, voltou a viajar, a fazer voluntariado, na busca consciente de um propósito. Regressou em 2018, mas já para se dedicar inteiramente a um projeto próprio, a Between – partnerships for development, a associação que fundou com uma rede de profissionais de diferentes áreas, de que é presidente. O foco da Between é promover a participação cívica e o estabelecimento de parcerias para o desenvolvimento. Esta ocupação preenche-a em todos os sentidos. Faz o que gosta e como gosta, gozando de autonomia 49

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