COMUNICAÇÕES 239 - Alexandra Leitão: Fazer Política para as Pessoas (2021)

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a conversa 20 E a sua

a conversa 20 E a sua referência na política? Em Portugal, se tivesse de dizer um nome, seria Mário Soares, devido sobretudo às eleições de 86, entre Soares e Freitas do Amaral. Eu ainda não votava nessa altura, mas esta campanha foi muito vivida em minha casa – e de forma diferente, porque os meus pais, sendo ambos de esquerda, um votou Soares, outro Zenha. Curiosamente, anos mais tarde fui aluna do Prof. Freitas do Amaral, em Direito Administrativo, e gostei muito dele. Recordo-o com muita simpatia – até pela nota que me deu (risos)! Qual foi a nota? Tive 16 na oral o que, nos idos de 1992, era uma nota bastante simpática. Mas ainda não explicou verdadeiramente porquê Mário Soares? Pela defesa irredutível que sempre fez da liberdade. Num momento em que é tão importante falar dela, sinto que ele nos faz muita falta. Como evoluiu o seu pensamento político e social? Sofreu revisões ao longo da vida? Da adolescência para a idade adulta? Não desconfia das pessoas que se No desempenho de funções governativas, aquilo que me move é querer fazer uma coisa e conseguir fazê-la mantêm inabaláveis em todas as suas convicções? Porque há sempre uma ideia nova que põe tudo em causa… Nunca lhe aconteceu? Dentro da mesma matriz ideológica, sim. Sinto que me moderei. Sou, seguramente, a partir dos 40, uma pessoa muito mais tolerante do que era aos 20. Porque relativizamos as coisas. Porque conseguimos ver os dois lados da mesma moeda e percebemos que a outra parte também pode ter razão. Não houve uma inflexão, mas um percurso de maior tolerância, até em relação ao erro dos outros. Eu era uma pessoa muito intolerante nesta matéria. “Se comete um erro, tem de ser punido”. “Se não estudou, não pode ter boa nota”. Hoje procuro saber o que está por detrás do erro. “Não estudou porquê? Cometeu o erro porquê?”. A intolerância é sinal de imaturidade, não tenho dúvidas. Eu era muito mais dura antigamente. Claro que há coisas com as quais devemos ser intolerantes, hoje mais do que nunca, como o racismo, a xenofobia, populismos demagógicos. Isso é o limite axiológico valorativo da sociedade como a queremos. E sabe o que nos obriga realmente a ser mais tolerantes? Ter filhos. Dá-nos sempre lições de grande humildade. Os filhos nunca são aquilo que achámos que eles iriam ser e não nos devemos projetar neles. As minha filhas, de 19 e 16 anos, obrigam-me a ver que elas têm o direito de pensar e fazer coisas diferentes de mim. Do ponto de vista do exercício da política pura e dura, qual o seu sonho? O que espera da política? Sempre me interessei por política. Gosto de política no sentido amplo do termo: de discutir a vida pública. Sou militante do Partido Socialista há muitos anos, a maioria do tempo absolutamente desconhecida. Mas na vida política ativa, no desempenho de funções governativas, aquilo que me move é querer fazer uma coisa e conseguir fazê-la. Acreditar que uma determinada política é a certa e concretizá-la. Não ser bem-sucedida gera em mim – não escondo – uma enorme frustração. Porquê? Sinto que, se não conseguir implementar aquilo em que acredito, então não vale a pena estar aqui. Por natureza, um cargo político não serve para gerir o statu quo, mas para fazer coisas. Se não consigo – por falha minha, por não ter as condições para tal ou pelas duas coisas ao mesmo tempo – então tenho de repensar o meu papel e a minha ação. Dou um exemplo: em 2011 ou 2012, escrevi para uma obra coletiva um artigo sobre o direito à educação. E foi no quadro desse artigo que me debrucei mais a fundo sobre os contratos de associação e sobre a sua bondade. Um dos maiores privilégios da minha vida – tenho a certeza de que daqui a 20 ou 30 anos isso será evidente para mim –, foi ter manifestado uma opinião académica sobre este tema e uns anos mais tarde ter tido a oportunidade de implementar o que tinha defendido. Isto é um privilégio que agradecerei para sempre: ter estado na posição de operacionalizar aquilo em que acreditava profundamente. Isto é muito precioso. E no lugar em que está agora, o que gostaria de implementar? Há dois ou três objetivos transversais que gostaria muito de concretizar, como o rejuvenescimento e a capacitação dos trabalhadores da Administração Pública (AP). Quero valorizar algumas carreiras e dar aos funcionários públicos o rótulo de excelência. Objetivos que a pandemia atrasou, e isso é uma frustração com a qual todos temos de lidar. Quero espalhar ainda mais o digital, mas acompanhando-o com a inclusão. Melho-

“O (meu) grande desafio é a transversabilidade deste ministério. Nas áreas setoriais é tudo mais fácil. O trabalho é mais focado. Aqui, não” rar o atendimento ao público, seja ele digital, telefónico ou presencial. E não é fácil. Qual o grande desafio? A transversabilidade deste ministério. Nas áreas setoriais é tudo mais fácil. O trabalho é mais focado. Aqui não. A modernização vai desde os serviços da Segurança Social, passando pelo IRN e terminando no SEF, áreas em que eu não exerço tutela direta. Tenho de implementar uma sólida estratégia de persuasão. As minhas três áreas são absolutamente transversais: o digital, a Administração Pública e a descentralização. Para uma pessoa como eu, que tem como característica pessoal gostar que as coisas dependam só de mim, não é tarefa fácil. O maior desafio deste ministério? Eu depender muito dos outros. Tem mesmo de construir pontes… Sim, porque o que é prioridade para mim não é prioridade absoluta para os ministérios com que tenho de lidar transversalmente. Por vezes até sou um bocadinho aborrecida, estou sempre em cima, a perguntar pelas taxas de cumprimento…. (risos) Voltemos à sua vida até chegar aqui. Era muito estudiosa, muito focada nos estudos. Teve uma infância feliz? Ficou alguma coisa por fazer naquela altura da tenra infância? Aos cinco anos entrei para a escola – fui aluna condicional. Já sabia ler, porque uma das melhores amigas da minha mãe, nossa vizinha, era professora primária. Ela propôs que eu entrasse antes do tempo. A verdade é que eu adorei a escola. Sempre adorei a escola! Depois, fiz um exame para entrar no ciclo preparatório. Essa imagem de boa aluna foi-se agarrando à minha pele – já era esperado de mim, eu já esperava de mim própria. Quando entrei no décimo ano, as notas escolares eram muito importantes para mim. Na faculdade, descobri 21

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