COMUNICAÇÕES 237 - Que Portugal Digital Queremos Construir? (2020/2021)

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APDC 237 - Que Portugal Digital Queremos Construir? Janeiro 2021

management 52 Uma lebre

management 52 Uma lebre chamada Remote Quando Job Van der Voort fundou, há cerca de um ano, a Remote.com, ainda estas projeções sobre o futuro do trabalho remoto estavam por fazer. Mas já então ele percebeu que havia no mercado muita gente a necessitar de ajuda para se lançar no setor. Gente que se deparava, por exemplo, com as mais diversas dificuldades ao nível da contratação num mercado global que não está organizado para dar respostas uniformes, que prevaleçam sobre as leis do trabalho de cada país. Não foi difícil arranjar clientes. Em cerca de um ano a equipa da Remote.com passou de dez para 80 pessoas e a tendência, diz Job, o CEO da Remote, “é para continuar a crescer”. De nacionalidade holandesa, mas casado com uma portuguesa, ele instalou-se em Braga e é de lá que gere os colaboradores que tem espalhados pelo mundo. Atualmente, revela, “a empresa está presente em 20 países e já fatura milhões”. Além de providenciar aos seus clientes informação sobre as especificidades de diversos países ao nível da legislação laboral, Job e a sua equipa constroem para as empresas ferramentas que facilitam a gestão do trabalho remoto e ajudam na contratação de profissionais um pouco por todo o mundo. Mas, segundo Job, “o grande desafio que se coloca à gestão de uma empresa que se baseia no modelo remoto é a constituição de uma cultura corporativa forte”, que prevaleça apesar da distância física e da heterogeneidade das equipas, em regra constituídas por nacionalidades diferentes. Mais do que tecnologia é, portanto, de cultura que se fala, quando se discutem as dificuldades de implementação deste sistema de trabalho. Remote Work Movement Gonçalo Hall, uma das vozes mais ativas na comunidade do nomadismo digital e trabalho remoto, interessou-se por estas matérias quando experimentou ser nómada e depois trabalhador remoto. Intuiu que este era um caminho que valia a pena desbravar há ano e meio, quando lançou o Remote Work Movement. Longe de imaginar que em breve chegaria uma pandemia que impulsionaria como nunca estas atividades, dedicou-se a 100% à divulgação desta forma alternativa de estar no mundo laboral, ciente de que iria trabalhar para um nicho de mercado. Formou a Remote Portugal e a Remote Europe, organizações que lhe permitem operar em rede neste segmento, identificando e angariando profissionais que estão interessados neste modelo de trabalho. Da sua oferta constava também serviços de consultoria e formação, bem como a realização de conferências para promoção e divulgação desta forma alternativa de estar no mercado laboral. “Na Madeira estamos a preparar uma vila para receber mais de 100 nómadas digitais e depois desta serão criadas mais 5 Digital Nomad Village” Gonçalo Hall, fundador do Remote Work Movement Pelas suas contas tinha tudo para crescer gradualmente, de forma sustentada, só que a COVID -19 veio mudar tudo: “Crescemos 300% durante o primeiro confinamento”, comenta com um sorriso. Nessa fase chegou “a fazer 2 a 3 workshops por dia”, informa. Hoje “começa a aumentar a consultoria por parte de empresários que já estão a planear o futuro”, diz. A experiência de Gonçalo Hall indica-lhe que “em Portugal já há muitas empresas a apostar no trabalho remoto, como é o caso da Outsystems e a Talkdesk”. E que não é só entre as empresas de software que essa opção se está a colocar: “Entre os meus clientes mais recentes estão uma agência de marketing e uma agência de comunicação”, partilha. Mais de metade dos clientes de Gonçalo são portugueses. Em regra, trata-se de “empresas com mais de 150 pessoas”, mas durante o confinamento também foi contactado por PME. O CEO da Remote Portugal e da Remote Europe diz que todos os seus clientes empresariais “têm a intenção de reduzir os escritórios em mais de 50%”. A prazo querem transformá-los em espaços de co-work onde as pessoas se deslocam para reunir e organizar pequenos eventos. É todo um conceito de trabalho que muda. Uma onda que conquistou, na sua opinião, o número suficiente de pessoas para que o universo laboral nunca mais volte a ser o mesmo: “Resolvido o problema da confiança, algo que pode ser ultrapassado pelas empresas através da adoção de métricas para a produtivi-

dade dos seus empregados, todos ficam a ganhar com a implementação do trabalho à distância ou de modelos híbridos que combinam o fator presencial e o remoto”. De resto, depois de terem experimentado o teletrabalho, há muitos profissionais que já não querem voltar ao escritório a tempo inteiro, conforme sublinha Gonçalo Hall: “Estou a ser contactado por pessoas que já sabem que vão ser obrigadas a voltar ao escritório e que não querem, por isso estão dispostas a mudar para empresas onde possam trabalhar remotamente”. Convicto de que este movimento se vai instalar, quanto mais não seja porque a próxima geração de líderes já é inteiramente millenial e portanto sensível a conceitos como felicidade e flexibilidade no trabalho, o líder do Remote Work Movement identifica sinais de mudança: “Vamos assistir à criação nas empresas do Head of Remote. O Facebook já está a contratar publicamente essa figura e o Twitter também já criou esse cargo”. Entretanto um projeto que está a desenvolver para o Governo Regional da Madeira reforça a ideia de que em Portugal esta transformação já começa a ser uma realidade: “Na Ponta do Sol (Madeira) estamos a preparar uma vila, que se encontrava abandonada, para receber mais de 100 nómadas digitais e depois desta serão criadas mais cinco Digital Nomad Villages. Vamos formar uma comunidade com pessoas de todo o mundo e acreditamos que o impacto vai ser gigante, até porque Portugal tem estado sempre muito bem classificado na Nomadlist, um índice reconhecido pela comunidade nómada digital e que mapeia os lugares considerados melhores para se trabalhar remotamente”. Ser remote first A insurtech Coverflex tinha acabado de se instalar no seu primeiro escritório quando a pandemia chegou a Portugal. Para Nuno Pinto, CEO e co-founder, foi um balde água fria, ter de mandar toda a gente para casa depois de ter investido tanto naquele espaço. Mas a mudança de planos inspiroulhe uma decisão estratégica: transformar a jovem empresa numa remote first company. Primeiro estranhou-se, depois entranhou-se: “A experiência que tivemos nos últimos meses foi muito positiva. Não sentimos quebra de produtividade, muito pelo contrário, e fomos bastante rápidos a adaptar-nos à nova situação”, conta Nuno Pinto. Importante foi consultar uma empresa para auxiliar a fazer o diagnóstico do impacto do remote: “Ajuda- “A partir de agora sabemos que podemos ter as pessoas que não estão habituadas a uma cultura de escritório, inclusive pessoas de outros países” Nuno pinto, CEO e co-founder da Coverflex ram-nos a definir os momentos que devemos ter com as equipas, a tratar dos processos de comunicação assíncrones e a construir processos comunicacionais entre departamentos”, refere. Uma das decisões que destaca foi também a de atribuir um remote budget às suas pessoas para que pudessem comprar material de escritório para as suas casas. No futuro, o CEO da Coverflex acredita que muita coisa mudará: “As pessoas vão querer voltar a sentir a presença dos colegas, mas ao mesmo tempo não desejarão abdicar de estar em casa, sobretudo nos dias em que o trabalho exige mais concentração. Por estes motivos muitas empresas vão tornar-se, pelo menos, remote friendly”. A transformação da Coverflex numa remote first company, abre, aos olhos de Nuno Pinto, novas perspetivas a nível de recrutamento: “Um dos efeitos positivos que esta situação nos traz é um grande potencial em termos de multiculturalidade. A partir de agora sabemos que podemos ter as pessoas que não estão habituadas a uma cultura de escritório, inclusive pessoas de outros locais do mundo. ”. Sem iludir as dificuldades inerentes a um processo de adaptação ao modelo remote, já são vários os players que começam a olhá-lo com uma outra atenção. Até porque esta opção traz vantagens óbvias às empresas, com diminuição de custos ao nível logístico e facilidade de contratação dos melhores profissionais no mundo. As famílias e em particular as mulheres também beneficiarão em termos de work-life-balance. Quanto à economia, novas oportunidades surgirão, nomeadamente para o consumo local. Talvez seja o fim dos “dormitórios” de subúrbios e o início de uma nova vida nas regiões do interior. Quem quer arriscar a fazer diferente?• 53

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