COMUNICAÇÕES 224 - A Senhora Simplex (2017)

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APDC 224 - A Senhora Simplex Setembro 2017

O seu pai, médico, era

O seu pai, médico, era o único cirurgião que existia na cidade onde viviam, Quelimane. Pode partilhar algumas das memórias mais importantes desses tempos? O meu pai estava sempre de serviço. Por isso não havia férias para nós fora de casa. Em sete anos, lembro--me de termos saído uma vez por 5 dias... Mesmo quando íamos à praia vínhamos sempre almoçar a casa. Enquanto lá estávamos, usavam a emissora de rádio local para chamar o meu pai em caso de urgência. Ele tratava de todas as comunidades, de modo que me habituei a comer diferentes comidas, picante desde muito pequena, quando íamos a casaà conversa Maria Manuel Leitão Marques administrativos e menos tempo perdido, com menos despesa inútil para o Estado, quero dizer, maior utilidade social na forma com são gastos os nossos impostos. Foi o que resultou de muitos projetos Simplex já concluídos e do Cartão de Cidadão, que tem muitos resultados positivos, além da supressão de cinco cartõezinhos e a sua junção num só. Mas vamos recuar para os primórdios da sua vida… Fale-nos das recordações que tem de Moçambique, onde nasceu… Como foram esses tempos? Que marca África tem em si? Como para muitos que lá viveram, África deixa a marca de um grande espaço, do cheiro a terra, do convívio com diferentes formas de vida e religiões (na minha escola havia católicos, laicos, hindus, muçulmanos). No caso de Moçambique, pela influência inglesa da África do Sul, os hábitos eram mais liberais – tanto na forma de vestir como no relacionamento social – do que na metrópole, onde vínhamos de vez em quando. Tenho boas recordações, sem saudosismo, e muito amigos de então. Vou com frequência e enorme gosto a Moçambique, para ensinar ou colaborar em projetos de modernização administrativa. E depois em Portugal, como se adaptou? Bastante mal, quando vim para o liceu feminino de Coimbra que tinha então um ambiente muito conservador. Melhor, quando entrei na Universidade. Aí sabia que estava a ter acesso a conhecimento e formação que não podia ter se tivesse ficado em Moçambique. Nesses tempos da universidade, como foi apanhar o 25 de Abril? Achava que ia mudar o mundo? Todos achávamos, ou melhor, muitos de nós. Tínhamos sonhos, ideias, projetos e a transformação do mundo estava ao nosso alcance. Para quando, não sabíamos, mas no dia 25 de abril de 1974, que jamais esquecerei, pensámos que era para já. a política não é um mundo cão. tem aliás de ser, cada vez mais, um mundo de colaboração: entre governos centrais, regionais e locais, e ao nível global O seu lado inconformista vem- -lhe de casa? O seu pai era antisalazarista militante, o que lhe passou de valores? O meu lado de esquerda e de confronto com o regime de então vem, é claro, do meu pai e de uma parte da família da minha mãe. Talvez essa ideia de não ter medo da polícia, de não ter medo de assinar um documento de protesto (nessa altura, antes de 1974, isso podia significar prescindir de uma carreira na universidade) fique connosco para sempre, nos dê coragem para travar outras batalhas ao longo da vida. Antes disso, ainda em Moçambique, como foi viver numa sociedade à época tão estratificada e com tantas injustiças sociais? Se dissesse que tínhamos consciência disso tudo, não estaria a dizer a verdade. Portanto, não foi uma vida de horror. Foi uma vida semelhante à que mais tarde tive cá. Sabíamos que estávamos a viver num regime que tinha os dias contados. Só não sabíamos quantos dias tínhamos de esperar. E sociedade estratificada e socialmente injusta era Portugal inteiro, e não apenas as suas colónias, com níveis de pobreza e desigualdade que ainda hoje nos arrepiam. Comecei a primária numa escola de aldeia perto de Aveiro. Tenho memórias bem vivas disso mesmo. C

mentos ou outras festas hindus, goesas, muçulmanas, ou quando nos ofereciam comida, por exemplo, no fim do Ramadão. Fora os queijos esquisitos, que adorava, que chegavam nos barcos noruegueses que vinham buscar a copra. Há muitas outras memórias, como a de irmos à noite iluminar a pista do aeroporto com os automóveis para permitir que ele, num pequeno avião, pudesse levar doentes urgentes para a Rodésia (hoje Zimbabwe). Tem pena de não ter registado essas riquíssimas histórias de vida do seu pai? Sim, muita pena. Histórias que com ele se perderam. No ano passado, deram o nome dele a uma avenida em Quelimane pela forma como ajudou pessoas perseguidas pela PIDE e como tratou todos de forma igual. Um antigo doente disse na homenagem que “o doutor tinha tratado a perna dele como se fosse branca”. Ensinou-nos que o mundo é grande, falou--nos das suas viagens como jovem alferes por Timor, Macau, Austrália, Índia, Egito, e sobretudo como o mundo é tão diverso. Ele também a influenciou no seu percurso escolar? Sempre foi boa aluna, estudiosa, trabalhadora. Nunca quis perder nenhuma oportunidade de viver intensamente. É isto? Em minha casa sempre aprendemos que os bons resultados se fazem com muito trabalho e que não caem do céu. Mas adoro a vida. Vivo-a intensamente. Prezo os meus amigos, muito, e aproveito os momentos livres para os ver e cozinhar para eles. Tenho amigos em diferentes lugares do mundo, pessoas que fui conhecendo muitas vezes em projetos de trabalho. Apesar das suas funções governativas, sempre teve alguma aversão à vida partidária. Porquê? Estar dentro de um partido político pode ser castrador? É melhor estar de fora para poder escolher as causas em que verdadeiramente acredita? Em boa verdade não estou inscrita, mas contribuo ativamente para o partido em que voto sempre que sou chamada para isso. Não estou inscrita porque não gostei nada da primeira experiência que tive como militante do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Reconheço que os partidos são necessários ao funcionamento das democracias e admiro muitos dos seus militantes que os mantêm vivos e, tanto quanto possível, saudáveis. No passado, já a tinham convidado para ser ministra e recusou. Porquê? E porque aceitou agora? Tem a ver com maturidade? Não, tem a ver com a experiência entretanto adquirida. Antes nunca tinha tido funções de governo, apenas funçõess académicas. O tempo de decisão é muito diferente, muito mais rápido nestas funções. Foi presidente do conselho científico da sua faculdade, montou projetos de investigação em África, Europa, América Latina. Já deu provas na vida de que é capaz de fazer coisas. O que a assustava mais na política era não ser julgada pela qualidade do seu trabalho, mas por outros fatores menores? Isso assusta sempre. Não creio C

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